quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Conflitos internos


Tenho uma regra: só aceito rever um filme depois de passado pelo menos um ano. No caso de filmes aos quais classifiquei com quatro ou cinco estrelas, o intervalo se amplia para de cinco a dez anos. É para dar tempo de a história “assentar”, deixar que descanse em algum canto da memória. Isso serve para que as qualidades de tal filme, que me levaram a qualificá-lo como uma obra-prima, se fortaleçam. Muitas vezes é quase como se fosse um filme inédito, já que nossa experiência cinéfila (e também de vida) é maior. Descobrimos mais detalhes, concedemos outras interpretações... A primeira vez seria a do impacto; a segunda, a da reflexão, da percepção, da maturação de um filme em sua excelência. Revi Zona de conflito agora, nove anos após tê-lo visto pela primeira vez. E todas as qualidades que vi nele na época se realçaram.

Dramas familiares existem aos montes, mas poucos conseguem ser tão dilacerantes quanto este, de 1998, que marcou a estréia na direção do ator Tim Roth. Apesar do ótimo resultado e da repercussão positiva – chegou a ser indicado ao prêmio de melhor diretor no Festival de Filmes Britânicos Independentes – , ele nunca mais se aventurou atrás das câmeras. Pena, porque mostra aqui potencial, segurança e refinamento na condução da história.

Ao se mudar com a família de Londres para Devon, o tímido adolescente Tom se torna ainda mais retraído, sem a companhia de seus amigos. Sua mãe está grávida, o pai trata a todos com rigidez, mas também com afeto, e sua irmã mais velha o acolhe nos momentos difíceis. Um dia, voltando das compras, Tom testemunha um fato terrível, que o lançará em um mundo de incertezas. Contém sua revolta, até que chega um dia em que não será mais possível guardar tanta dor. Sua angústia se transforma em ação e explode em uma cena de forte impacto visual.

Com meia hora de filme o grande segredo da trama se apresenta ao espectador. Mesmo assim, prefiro não revelá-lo. A partir daí, assiste-se a um lento e doloroso estudo sobre a culpa. É um rito de passagem dos mais escabrosos, pontuado pela fotografia que valoriza as belíssimas locações externas e por um ritmo contemplativo, lembrando por vezes os dramas existenciais de Bergman.

Roth extrai o máximo de seu elenco. Tilda Swinton dispensa apresentações e muitos anos antes de se mudar para Hollywood já era a atriz de fartos recursos dramáticos que hoje o grande público conhece. Ray Walstone confere amedrontadora veracidade à figura do pai ambíguo. Também construiu carreira sólida nos Estados Unidos (Sexy beast, A proposta, recentemente em A invenção de Hugo Cabret, entre muitos outros). Ironicamente, o casal de filhos, interpretados por dois estreantes no cinema, parece ter sido mesmo vítima de maldição familiar, já que nenhum dos dois fez nada de relevante depois. Freddie Cunliffe, que faz o atormentado adolescente, limitou-se a curtas e telefilmes sem importância, empacando a carreira em 2008. A bela Lara Belmont ainda se arriscou em Hollywood com o fraco terror O jogo dos espíritos, de 2001, mas também não alcançou o estrelato que se esperava. Ainda na ativa, igualmente se limitou a produções menores (séries, curtas). Ambos transmitem, apenas com o olhar e expressões faciais, toda a complexa rede de desespero e dor silenciosa que seus jovens personagens experimentam. São grandes trabalhos de composição. Curiosidade: Colin Farrell, bem novinho, faz uma ponta (nos créditos finais, assina com um "J." entre seus dois nomes).

O título original, “The war zone”, o mesmo do romance de Alexander Stuart, não publicado no Brasil, em que o roteiro se baseia, faz crer que se trata de um drama de guerra. Mas, na verdade, a guerra maior e mais sofrida é travada mesmo dentro de casa. Com feridas incuráveis. Um filme obrigatório, para ser conhecido ou redescoberto. Inclusive pelas distribuidoras, que despejam tanta besteira nas locadoras, mas nunca se tocaram de lançar este aqui em DVD.

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A partir dessa semana, as postagens aqui no CineComFritas serão feitas apenas às quintas-feiras. É para dar mais visibilidade a alguns textos, que antes ficavam "espremidos" no final de semana. Porém, na época do Festival do Rio (28 de setembro a 11 de outubro), as postagens podem voltar a ser diárias, ou quase.

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